SEGUNDO MANIFESTO DO MOVIMENTO SEM EMPREGO

Vivemos o tempo crítico da nossa democracia. A economia capitalista é protegida a qualquer custo e, perante a força do capital que se acumula e concentra, a vida real das pessoas é sofrimento irrelevante. A cada dia que passa, os nossos governantes revelam a verdadeira face da sua ideologia política e económica, a sua única finalidade: a conservação parasita das relações de poder capitalistas. Pois há muito se tornou evidente que a tendência do poder político em Portugal só tem um fim programático: beneficiar a dinâmica do grande lucro e proteger os detentores do capital; sim, há muito se tornou evidente que, para o poder político, a liberdade, a dignidade e a vida humana não têm outra valia senão como flores de retórica que santificam as suas mais baixas intenções. A vida de um trabalhador, de um estudante, um reformado, um desempregado, é uma vida substituível e abstracta, desprezível por si mesma, sem dor e vontade próprias: pois a vida é encarada pelo poder político como mero custo económico, um vida pesada e sopesada pelos interesses do capital alicerçados na finança pública, ou então como simples variável dos custos de produção, na singular perspectiva da margem de lucro. Para os governantes de Portugal, os trabalhadores, os desempregados, os reformados, os estudantes, as pessoas, só têm dignidade oficial enquanto dado de estatística, no lugar comum da sua arrogância ideológica.

Ora, isto só acontece porque a grande maioria dos portugueses tem sido educada à impotência, ao medo e à frustração, para ser embalada no conforto ilusório do conformismo e indiferença. Apesar da luta dos trabalhadores e reformados, dos desempregados e estudantes, a propaganda política do chamado “arco de governação” tem impedido a grande maioria dos portugueses de se esclarecer, pois, submersa no ruído desta propaganda, a informação real não pode ser eficazmente transmitida, quanto mais discutida ao mais alto nível da compreensão humana! Todos os dias, esta propaganda oferece, sem cessar, falsos juízos de inevitabilidade, opiniões tendenciosas e conclusões dolosamente erradas, e mostra-se disposta a extraordinárias manipulações da consciência e da vontade individuais. Aparentemente neutral, o discurso sobre a competitividade da nossa economia, sobre a necessidade de retoma do crescimento económico, está pejado de significados ideológicos e políticos incompatíveis com uma sociedade democrática; contudo, apesar disso, como se pudesse ser desligado o sentido da sua razão, uma certa esquerda tem participado neste discurso, adoptando-o acriticamente, numa clara perda de rumo. Pois tudo parece admissível aos nossos governantes, desde que preservem, desenvolvam e façam triunfar sem mossa o exacto modelo político-económico que conduziu inevitavelmente Portugal até este instante terrível da História.

Em Portugal, um milhão e quinhentas mil pessoas está sem emprego e já perdeu a esperança de o encontrar. Metade dos jovens está desempregada e quem tem mais de 45 anos nem sequer é empregável: se prosseguirmos no percurso político-económico que nos trouxe até aqui, iremos definhar, mendigar e morrer. Mas, para os nossos governantes, o desemprego trata-se de um flagelo de oportunidade! Eles sabem que, neste modelo económico, um elevado número de desempregados potencia a baixa de salários dos trabalhadores, fundamenta a precariedade dos vínculos laborais e acaba por minar a combatividade dos trabalhadores no activo — contudo, na perspectiva ideológica dos nossos governantes, estas são condições óptimas não só para a conservação da margem de lucro na actividade produtiva, como para a estimulação da suposta competitividade das empresas nacionais e do investimento de capital no território nacional! Além do mais, funciona como justificação bastante para as chamadas “políticas de incentivo ao emprego”, que se não visam de modo algum a criação sustentada de postos de trabalho, muito menos de trabalho com direitos e dignidade, permitem disfarçar o descarado desvio de recursos públicos para o capital privado. Pois se alguém colhe benefícios reais com a acção dos nossos governantes, não é, nem nunca será, a grande maioria das pessoas, até porque elas aprendem todos os dias a vender-se a níveis remuneratórios cada vez mais baixos e a sofrer renovados ultrajes, mas é, e tem sido sempre, a ínfima minoria dos detentores do grande capital.

Acreditamos que no dia em que as pessoas conseguirem superar aquele ruído, sempre aumentado por comentadores partidários e comissários do poder económico, nesse dia poderão colocar a si mesmas uma simples e fundamental pergunta: como é que podemos viver e gozar a nossa vida nesta sociedade? Nesse dia, como se assumissem a vontade de uma responsabilidade pessoal, irão concluir: NÃO PODEMOS VIVER ASSIM! Pois quando um modelo de desenvolvimento económico torna a vida cada vez mais impossível nos planos mais básicos da existência, é o modelo de desenvolvimento que tem de ser revogado e não a existência continuamente degradada… E NÓS QUEREMOS VIVER!

Por isto, o Movimento Sem Emprego apela a todas as pessoas de todas as raças, nacionalidades, credos e estratos sociais, a todos os reformados, trabalhadores e desempregados, a todos os que estiverem interessados em agir e em criar soluções para o grave problema de vida que o sistema capitalista suscita às pessoas e, particularmente, aos trabalhadores desempregados: JUNTEM-SE A NÓS! Mas, atenção!, é preciso que algo fique bem claro: pois se temos por objectivo desenvolver e participar num programa de luta anti-capitalista, não queremos imitar quaisquer processos e soluções que nos possam oprimir a existência. Há que abrir o espaço da realidade a soluções de liberdade!

Não estamos interessados em acções meramente espectaculares, acções que acalentam os peitos de meia dúzia de sonhadores de oportunidade e que estão desprovidas de qualquer eficácia política: pois não estamos interessados em favorecer a impotência pessoal!

Acreditamos que os trabalhadores desempregados têm de organizar a sua luta a partir de movimentos de defesa dos seus interesses e direitos pessoais, económicos e sociais, e esperamos que um dia, nem que seja pela infeliz e bruta realidade do grande número de desempregados, tenhamos as condições de ser uma força impossível de desprezar.

Acreditamos que um dia, como noutros momentos da nossa História, os desempregados e trabalhadores, os reformados e estudantes, irão despertar na compreensão exacta da sua força e inteligência. É que há muito que se sente um grito a ganhar corpo em todos os cantos de Portugal e que, lançado cada vez mais alto, são milhares de operários e agricultores gritando, comerciantes e administrativos, trabalhadores com direitos e trabalhadores precários, e a ele se juntam diariamente um milhão e quinhentos mil desempregados que também gritam: QUEREMOS VIVER!
Só então poderão dizer: basta! E, decididos à coragem e ao perigo, irão agir — decisivamente.

Pelo Movimento Sem Emprego: Pedro Bravo

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